MORRI

Preguiçosa acordou a manhã.

Corre a notícia de que morri.
Ouvi e li,
Sem ver a data do jornal,
Mas lá está - morri! Não faz mal.
Morrer, tenho a certeza,
É o simples e esperado ocaso,
No dever e respeito à Natureza.

No interior da morte,
Não perdi o norte.
Despojada de elementos materiais,
Afinal bem banais,
Vou, bem arranjada,
Aprumada e asseada,
Com meu fato de enterro,
Pronta para a celestial festa.
Foi desta!

Durante a terrena vida, dia após dia,
Aprofundei a pura essência
Do encanto da poesia
E da surpreendente ciência.
Não me contentei com o existir.
Fragmentei o tempo, antes de partir.

Quase sem aviso, regressei ao Paraíso
Donde um dia saí, em missão na Terra.
Espalhei a paz, lutei contra a guerra.

No fim da longa estrada
Senti, enfim, alguma fadiga
De jubilosa jornada.
Não me faltou mão amiga!

No desfilar de sombras na aragem
Uma, lutuosa, me envolve.
Esquecida da saudade,
Qual animado saltimbanco,
Para radioso céu azul e branco
Parti sem bagagem
Na derradeira viagem.

Vou continuar a falar-vos, sem dor,
De Deus, de Paz, de Justiça e de Amor.
Não me choreis. Recordai-me com alegria!

Adeus, amigos, adeus! Até um dia!

Inédito de João Coelho dos Santos
Do livro no prelo
NA ESQUINA DA VIDA




Maria Barroso - Uma mulher invulgar

Era uma mulher que irradiava luz própria, aliada a uma aura especial e a uma força sem limites. Quando entrava num salão repleto de gente era a sua presença que o enchia.

Caminhava segura de convicções, alimentadas desde o berço, que não foi de ouro. Respirava tolerância e fazia rimar liberdade com responsabilidade.

A prática da sua vida resultava com naturalidade dos princípios e valores que sempre a guiaram. Era um pilar na amizade. Uma ponte que ligava margens de desencontros transformando-os em encontros. Uma rocha que se distinguia por ser simples.

Marcou os lugares e as instituições por onde passou. Na arte de representar e de dizer, cortando algemas por um mundo melhor. Na formação de gerações de jovens. Na retaguarda ou na primeira linha, mas sempre por um país solidário e justo. Na presença arriscada, onde doía mais, por projetos de futuro.

Na posição de mulher e de primeira-dama ao lado de um grande homem, companheiro de uma vida. Na relação tocante com os filhos, netos e demais familiares. Na ausência de qualquer rancor. Inclusive para quem a destituiu de uma grande instituição humanitária que dirigiu, apenas por ser quem era e o nome que tinha, depois de ter desenvolvido nela um trabalho de gigante . Na Pro Dignitate, a Fundação que criou e por ela fez criar paz onde havia guerras e risos onde havia lágrimas de gente que sofria.

Recentemente pessoa amiga manifestou-me estranheza pelo fato de, com o seu falecimento, o povo português ter feito dela ícone. Eu não estranhei. Sempre pensei que iria ser assim em algum momento. Talvez porque tive o privilégio de ser seu amigo e de ter podido partilhar de perto muitos dos objetivos que traçou e que coerentemente vieram agora em torrente a público.

Além disso, Maria Barroso tinha um nome verdadeiramente português.

Vítor Ramalho
Administrador da Fundação Pro Dignitate